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| Entrevista ao galveense José Luís Peixoto |
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| Escrito por João Vieira | |||
| Quarta, 03 Dezembro 2003 23:07 | |||
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Helena
de Sousa Freitas entrevista:
José Luis Peixoto.
Helena - O que significa
para si a edição de A Criança em Ruínas, título de poesia, quando
começa a ser visto como um prosador de sucesso?
José Luís Peixoto -
A poesia foi um género que nunca abandonei. Os primeiros textos que escrevi,
com intenções literárias, foram escritos em verso e, até hoje, nunca
deixei de escrever poesia. Além disso, continuo a ser um leitor compulsivo
de poesia. Penso mesmo que a influência dessa leitura está bem presente na
minha prosa. Como tal, A Criança em Ruínas é um livro bastante importante para
mim, pois contém poemas que foram e são muito importantes para mim.
Helena - No livro
Morreste-me expressa a dor pela morte do seu pai. Transportar esse
sentimento de perda íntima para a obra literária aliviou-o, fê-lo
compreender melhor o que sentia ou implicou um repisar do trajecto doloroso?
José Luís Peixoto -
Para se escrever sobre algo que se conhece ou que se viveu é fundamental
ordenar esse sentimento, tentar compreendê-lo tanto quanto possível.
Creio que esse processo fez com que eu entendesse melhor essa perda e, como
tal, ajudou-me bastante a viver com ela.
Helena - Foi dado
recentemente à estampa, numa colectânea da editora 101 Noites, um
texto da sua autoria intitulado A Menina e a Mãe, que denota uma grande
percepção do mundo feminino, das suas fragilidades e tragédias. Em
que medida a figura maternal tem influenciado a sua vida e a sua escrita,
sobretudo após a morte do seu pai?
José Luís Peixoto -
Freud foi muitíssimo perspicaz ao perceber a importância que a mãe,
tal como o pai, têm na formação da personalidade de cada indivíduo. No meu
caso, tenho a sorte de ter uma mãe que sempre me deu um exemplo de coragem e
de perseverança. Até no ponto de vista literário, creio que a sua influência
foi fundamental. A riqueza e as particularidades do seu imaginário e do seu
vocabulário (com muitos regionalismos e expressões do Alto Alentejo) é algo
que fará sempre parte de mim. Como vem escrito nessa antologia, citando
Balzac: O coração de uma mãe é como um abismo no fundo do qual
encontramos sempre perdão. Assim é o coração da minha mãe.
Helena - Os galardões literários são por vezes
olhados com alguma ironia no meio. Qual a sua posição sobre isto, tendo em
conta que o seu romance Nenhum Olhar aumentou o nível de vendas depois
de ter arrebatado o Prémio José Saramago 2001?
José Luís Peixoto -
Normalmente, os galardões literários são olhados com ironia apenas por
aqueles que não os recebem. No meu caso, foi algo com que não estava
minimamente a contar. Ainda para mais tratando-se de um prémio onde o
universo em causa era o de todos os países de expressão portuguesa.
Fiquei, obviamente, muito feliz, sobretudo porque senti que o prémio foi um
motivo de orgulho para a minha família e amigos.
Helena - Nenhum Olhar foi terminado já em Cabo
Verde, onde, como revelou certa vez, tentou exilar-se de si próprio. O tempo
que permaneceu no país influenciou a conclusão da obra em algum aspecto?
José Luís Peixoto - Estou convencido de que a influência terá sido pequena, uma vez que o livro já estava todo definido quando cheguei a Cabo Verde. Todos os aspectos estavam já plenamente decididos. No entanto, nesse ano que passei em Cabo Verde encontrei bastantes semelhanças com o Alentejo (tratado em Nenhum Olhar), sobretudo no que diz respeito à generosidade das pessoas.
Helena - Depois de Nenhum Olhar ser lançado
pela Temas e Debates passou a ter uma agente. Sente-se agora mais livre
das actividades relacionadas com a divulgação literária ou já antes não
lhes dedicava muito tempo?
José Luís Peixoto -
As únicas actividades de divulgação literária em que participo são
aquelas para que me convidam e só mesmo se me for impossível estar presente
é que recuso encontros públicos com leitores. Esses encontros em
bibliotecas, escolas, feiras do livro, livrarias, etc, são actividades que faço
com muita frequência. O trabalho da agente literária é totalmente desligado dessa vertente, pois diz respeito à negociação de direitos sobre os meus livros com editoras de outros países.
Helena - O facto de ser
este ano bolseiro do Ministério da Cultura e de ter sido considerado pelo
Nobel José Saramago como o continuador dos escritores não condiciona o
que está a escrever? Não se sente pressionado?
José Luís Peixoto - Tento não deixar que a pressão não me afecte. Para continuar a escrever como até aqui, para tentar dar o meu melhor, no momento em que escrevo tenho de estar completamente livre das expectativas que possam existir. Penso que tenho conseguido fazê-lo. Não tenho qualquer tipo de problema a esse nível. As inseguranças e as certezas que tenho em relação àquilo que escrevo são as mesmas que sempre tive.
Helena - No âmbito da bolsa literária está a trabalhar num novo romance. Já pode falar um pouco sobre ele? Em que é que a nova narrativa se aproxima e distancia do estilo e da história de Nenhum Olhar?
José Luís Peixoto -
Neste momento, por superstição prefiro não falar ainda desse romance. No
entanto, penso que terá necessariamente pontos de contacto e de
distanciamento de Nenhum Olhar. Os primeiros reflectem o facto de serem
escritos pela mesma pessoa. Os segundos reflectem as possíveis evoluções
que tenham surgido na minha forma de ver a escrita.
Helena
- Trabalha com método, com objectivos pré-estabelecidos e num processo contínuo.
Na sua opinião, o criador ideal depende em 1% da inspiração e em 99% da
transpiração?
José Luís Peixoto -
Na literatura tem, naturalmente, de existir espontaneidade. Sem esta característica
dificilmente existirá arte. No meu caso existem dois processos de escrita
algo diferentes: o da poesia e o da prosa. Se no caso da poesia a
espontaneidade é uma característica central, no caso da prosa a transpiração,
o trabalho, é fundamental.
Helena - Apesar da lógica e organização com que trabalha ao nível técnico, expressa um ponto de vista romântico da literatura ao defender que os bons romances acrescentam sempre algo à vida do leitor. Estes dois lados do escritor - o racional e o emotivo - convivem pacificamente na mesma pessoa?
José Luís Peixoto -
Sim. A harmonia entre ambos conduz à literatura que, neste momento, me
interessa escrever.
Helena - Decidir-se a abandonar a profissão de professor de inglês pela escrita em exclusivo foi uma atitude corajosa. Nunca teme ter-se precipitado, vir a arrepender-se?
José Luís Peixoto -
Se as coisas correram mal, aquilo que poderei fazer é voltar a procurar
uma profissão mais segura. Mas, até lá, não penso muito nisso e
aproveito, saboreio cada minuto. Sempre acreditei que o pior arrependimento é
aquele que nasce das coisas que não se fizeram.
Helena - Depois de deixar o ensino escreveu teatro, cinema, letras para músicas e artigos para a imprensa. Este exercer do texto nos seus vários géneros prende-se com a sobrevivência financeira?
José Luís Peixoto -
Sim. Aquilo que sempre quis fazer de facto foi escrever apenas poesia e ficção
em prosa. No entanto, escrevi textos de vária ordem que, além de terem sido
desafios interessantíssimos, me deram um prazer muito grande e foram muito
formadores ao nível da escrita de poesia e de ficção.
Helena - Tem afirmado várias vezes que a escrita não o mudou, que continua a ser a mesma pessoa apesar das vendas, das traduções, dos prémios. Esse equilíbrio e tranquilidade são difíceis de manter quando o apontam como um dos mais promissores escritores da actualidade?
José Luís Peixoto -
Como disse, tento não deixar que isso me influencie. Tento fazer o melhor que
posso, que é o mesmo que tenho feito até aqui.
Helena - Com apenas quatro anos fazia birras para que as suas irmãs lhe lessem histórias. Por motivos sócio-laborais diversos, nas famílias de hoje há menos tempo para ler contos às crianças. Como pai e como autor, sente que se está assim a perder uma forma de cativar desde cedo os mais novos para o prazer da leitura?
José Luís Peixoto -
Não sou assim tão pessimista. Actualmente, as crianças têm vários meios
que competem com os livros: televisão, Internet, etc. Ainda assim, continuam
a existir leitores entre os mais jovens. Veja-se o fenómeno Harry Potter...
Helena - A partir do
momento em que começou a ler tornou-se sócio da biblioteca itinerante que,
uma vez por mês, visitava a vila de Galveias, distrito de Portalegre, onde
residia. Face a esta experiência, como vê o acesso
ao livro nas zonas rurais, no interior português?
José Luís Peixoto -
As bibliotecas itinerantes eram a única possibilidade que muitas pessoas
tinham de ler. Foi uma perda muito grande. Apesar de existir um esforço muito
positivo no sentido de construir uma rede nacional de bibliotecas públicas, o
fim das bibliotecas itinerantes é uma lacuna que ainda não foi
colmatada.
Helena - Conhece o Literário Online (www.literario.com.br)? Que opinião tem do mesmo?
José Luís Peixoto -
Acabei agora mesmo de fazer a minha primeira visita. Por aquilo que vi, tenho
a certeza de que vou regressar muitas mais vezes. Parece-me ser uma forma séria
de utilizar a Internet para promover o acesso à literatura.
Helena - Em jeito de
despedida, que mensagem deixa aos seus leitores?
José Luís Peixoto -
Os meus votos sinceros de felicidades. Desejo boas leituras e paz para
todos.
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